sexta-feira, 31 de julho de 2015

É de manhã, Caê

Os galos gritam:
O céu pariu a flor da manhã!
Seus salmos zelam a vida.

Monique Neiva

Tristeza também é água

Sinto-a branda na fonte
tal qual o mar que engole um rio
e me deságua a dor incolor.
A saudade é transparente.

Monique Neiva


Inventário


  1. Deixo a guitarra desafinada e seminova aos surdos.
  2. Aos vaidosos, deixo minhas roupas gastas e rasgadas.
  3. Para os que sentem frio, deixo os meus biquínis.
  4. Aos analfabetos deixo a coleção de lápis com pontas bem feitas.
  5. Deixo aos sedentários minha bola de futebol quicando no pátio.
  6. Deixo a saudade e o milagre da vida para trás aos presentes mortos.

NOTA: Só não posso deixar o amor e nem ele me deixa. Descanso abraçada ao infinito.

Monique Neiva

Memorial de Leitura

Apresentação






O que as palavras representam pra mim? Resposta Difícil. Quando tinha de dois a três anos de idade, ainda não sabia ler, mas tinha uma enorme vontade de aprender aquele universo tão desconhecido. Na grande ânsia, combinava várias letras do alfabeto, tentando formar algo que pudesse ser traduzível para o universo adulto. Depois de feitos os arranjos, pedia pra mainha interpretar aqueles signos inovadores e ela me dizia: Não tem nada escrito aí! Com isso entendi num misto de frustração e um pequeno rastro de sabedoria que precisaria de paciência e dedicação para aprender as tais combinações. Apenas a motivação não seria suficiente pra engatar as rodas da linguagem. Era preciso técnica para a grande revelação incansável das palavras. Só a prática do meu conhecimento de mundo aliada à manifestação do sentimento poderiam me proporcionar essa intimidade.
O que eu faço aqui é exatamente isso. As tentativas não cessam. O amor pelas palavras e sua magnitude não acabam. Sempre que descubro mais uma de suas faces, percebo o quanto são infindáveis. A palavra possui vida própria e complexa e peso de eternidades.
Acredito que a prática da escrita literária é uma tentativa desesperada do homem se aproximar das palavras. E como todo desesperado, cá estou.

Monique Neiva