sábado, 26 de março de 2016

O Amor é uma companhia







Alberto Caeiro
(Heterónimo de Fernando Pessoa)

Portugal
n. 16 Abr 1889
Poeta
 

O amor é uma companhia.
Já não sei andar só pelos caminhos,
Porque já não posso andar só.
Um pensamento visível faz-me andar mais depressa
E ver menos, e ao mesmo tempo gostar bem de ir vendo tudo.
Mesmo a ausência dela é uma coisa que está comigo.
E eu gosto tanto dela que não sei como a desejar.

Se a não vejo, imagino-a e sou forte como as árvores altas.
Mas se a vejo tremo, não sei o que é feito do que sinto na ausência dela.
Todo eu sou qualquer força que me abandona.
Toda a realidade olha para mim como um girassol com a cara dela no meio. 

Obs (Nique).: Este poema vem traduzindo tudo o que sinto ao longo desses últimos três anos. Acho importante só publicar neste espaço coisas autorais, mas me vejo no estado anímico destas linhas. Gostaria de saber se Alberto Caeiro teve acesso aos meus sentimentos.

quinta-feira, 24 de março de 2016

ABC: Não ser inconveniente

Respeitar a dor e a alegria do outro. 
Só intervir na vida de alguém se for solicitado.
Não tirar proveito de situações que causem constrangimento coletivo. 
Escolher pedir ao invés de mandar. 
Se algo lhe provocar dúvida, não tire conclusões precipitadas, pergunte.
Orgulho é importante, porque é uma maneira de proteção. Mas não insista em manter-se em posicionamentos que trazem infelicidade e angústia. 
Saiba dar tempo ao tempo. 
Existem momentos melhores pra reaproximar-se de alguém. Tenha sensibilidade pra captá-los. 
Sempre deixe muito claro o que as pessoas representam pra você. Não precisa prolongar mistérios.
Pirraça não é engraçado. Não jogue com a paciência dos outros.
Dialogar é tudo.

Dica: O amor e a compaixão são combustíveis que fazem com que possamos cumprir esse pequeno manual.

GRAFITE


Onde a palavra era vertigem,
escorreguei no traço soturno. 
O traçado repetia a queda:
A cada novo deslize 
Muito mais gemia o mundo.


Monique Neiva 

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2016

Quinta-feira

Vê-la passar tão indiferente é algo doloroso demais. Como alguém pode se acostumar com tamanha indiferença? Pra mim ainda não desce! Será que para de incomodar um dia? Estou incrédula... Meu egoísmo alimenta a ideia de absorvê-la a prisão de meu corpo e não deixá-la escapar nem sob custódia ou habeas-corpus. Uma justiça em que o peito não dê nenhum direito à sua defesa. Mas aí eu não seguraria mais nenhuma espada nem viveria com vendas nos olhos... Pesos iguais, liberdade de cá, liberdade de lá. Solidão minha num grandão de Náusea. Cheia do rastro do perfume que ela sempre deixa pelos seus caminhos reais e tortos. E eu tomo goles doces de seu aroma mesmo contra-indicações! Você que me ensinou tanto sobre paixão e despertou em mim minhas verdades mais intuitivas e sensíveis, por favor, se mostra um pouquinho... A única certeza que eu tenho na vida é que não consigo ser mais ou menos que isso: Te preciso!

domingo, 11 de outubro de 2015

DE SETEMBRO

Para M.


a ventania tira a dama pra dançar
na dança o gosto da malemolência
a brisa acaricia teus ar-bustos
e beija as dores de tua solidão

um dois três um dois três
passeiam no compasso do teu corpo
tuas incertezas, tuas rimas não

o tempo coreografa sem nada dizer
tece um silêncio meio torto
qualquer desejo sem pressa sem apelo

a música para]

tropeçam nalguma coisa sem nome
e se encerram os passos nos teus cabelos.


Monique Neiva
moça sem laço nos cabelos
tá afrouxando os nós da minha paz
nem a dança
nem teus longos abraços
e tão pouco a distância nos entendem mais

 a poesia toca o que deseja]

veja não coloquei um nome nestas rimas
mas com a vida de menina
e o que há de incerto na caminhada
elas bem que podiam se chamar
'de mim e de ti não sei mais nada'.

Monique Neiva

terça-feira, 22 de setembro de 2015

Exortação

"E a viagem prosseguiu mais lenta, mais arrastada, num silêncio grande. "
-Graciliano Ramos



Sou devagar. Sou de sumir, de ponderar bastante. Nem sempre fui assim.  Mas quem é e continua sendo sempre?  Tenho em mim movimentos alheios a minha própria vontade.  Não sei o porquê de ainda tentar me explicar neste espaço das letras, visto que a linguagem jamais dará conta da experiência humana. Vai ver o que procuro não é o entendimento e nem a certeza. Vai ver o que eu procuro deve ser aquela coisa que a Clarice chama de "it" em Água Viva. Para os que não sabem, o sintetizo como uma espécie de iluminação. Pronto! É isso! Quero achar a iluminação através das palavras. O momento exato de clarividência atrás de todo verso e prosa. Desconfio que ninguém atinge isso, ou ao menos chega perto, em outro lugar. Não quero me assemelhar a outros escritores, nem quero agora falar do que eu estou sentindo, porque isso não faz diferença. Quero a tentativa de descobrir nesse lugar a minha existência. Quero profundidade. Quero que ele seja o colo que me faz descansar do peso do mundo por alguns instantes. A vida, que muitas vezes é representada metaforicamente como "viagem", se apresenta e imprime em nós o tom do tempo e das suas estações nessa translação louca de palavras subjetivas. A minha primavera de 2015 é assim, seca, caminhando lentamente para um verão que aparentemente não tem tons ainda. Ela diz pouco a que veio e me emudece, quando tento dizer da dor. Então penso que é melhor não dizê-la e continuar em silêncio com a cabeça recostada.