-Graciliano Ramos
Sou devagar. Sou de sumir, de ponderar bastante. Nem sempre fui assim. Mas quem é e continua sendo sempre? Tenho em mim movimentos alheios a minha própria vontade. Não sei o porquê de ainda tentar me explicar neste espaço das letras, visto que a linguagem jamais dará conta da experiência humana. Vai ver o que procuro não é o entendimento e nem a certeza. Vai ver o que eu procuro deve ser aquela coisa que a Clarice chama de "it" em Água Viva. Para os que não sabem, o sintetizo como uma espécie de iluminação. Pronto! É isso! Quero achar a iluminação através das palavras. O momento exato de clarividência atrás de todo verso e prosa. Desconfio que ninguém atinge isso, ou ao menos chega perto, em outro lugar. Não quero me assemelhar a outros escritores, nem quero agora falar do que eu estou sentindo, porque isso não faz diferença. Quero a tentativa de descobrir nesse lugar a minha existência. Quero profundidade. Quero que ele seja o colo que me faz descansar do peso do mundo por alguns instantes. A vida, que muitas vezes é representada metaforicamente como "viagem", se apresenta e imprime em nós o tom do tempo e das suas estações nessa translação louca de palavras subjetivas. A minha primavera de 2015 é assim, seca, caminhando lentamente para um verão que aparentemente não tem tons ainda. Ela diz pouco a que veio e me emudece, quando tento dizer da dor. Então penso que é melhor não dizê-la e continuar em silêncio com a cabeça recostada.
