segunda-feira, 17 de agosto de 2015

Autorretrato


Esta publicação é a revelação de algo que nem eu mesma sabia. É um segredo que deixa de sê-lo agora. Irão entender-me. Não gosto de me desenhar. São inúmeros os motivos, mas citarei um que elegi como sendo o principal: o perigo iminente da intimidade.
O desenhista visita a vida alheia toda, desde a simples aparência dos traços físicos até uma profunda embriaguez subjetiva. Os olhos dele vão além do lápis, face e papel. São alguns minutos de extrema submersão no mundo que provavelmente desvenda. Os outros, ao deixar-se desenhar, entregam muito mais do que pensam. Não sondam nem se quer por um momento esta intimidade velada. Não podem imaginar o que descobri de cada um que já transformou-se em minhas linhas. Eu acho que não é justo ter acesso a tudo isso. Parece a violação de um direito básico, o de ter seu próprio espaço.
Quando me ponho na posição de desenhado, deixo-me revelar. Vamos concordar e descordar em algum ponto, tudo bem. Porém neste faço questão que concordem: É muito difícil ser visto de perto por outra pessoa, se desnudar e escancarar tudo. 
No ato de desenhar e também de ter esse acesso incondicional, automaticamente firma-se um elo entre criador e inspiração.
Ao assumir o papel de observador e observado, sinto um duplo desconforto. Sou violadora e violada ao mesmo tempo. Se ver é sempre pesado, mesmo para alguém que ame demais ser quem é. Mesmo para uma leonina. Narciso está por fora disto, certamente. Para quem se desenha, as coisas podem ser muito mais caricatas do que o normal. Eis aí como me vejo: Uma mulher de 50 a 60 anos com algumas olheiras e pouca ou nenhuma vaidade. 

sábado, 15 de agosto de 2015

Gratidão


Do dia 11 de fevereiro de 2014

"O mundo é alheio ao sofrimento individual." 
Pensava eu, enquanto me desmanchava em lágrimas na rua. Um estranho pergunta:
- Aconteceu alguma coisa?
De alguma maneira, minha dor interferiu seus devaneios. Fiquei sem saber o que dizer, porque dificilmente me entendo, mesmo tendo um motivo específico para lavar os olhos. Essa compaixão me deixou mais calma. Senti que a frase em destaque era uma regra, mas o mundo se sustenta e consegue ser melhor pelas exceções.
Senhor, agradeço! Porque sendo mais um na multidão, sou diferente também.
Ao anônimo, obrigada pelo carinho gratuito. Espero que durante o seu caminho alguém possa lhe oferecer o mesmo. Quem sabe num dia de saudades e perdas?

Monique Neiva

A cor da tempestade

A tempestade é desalmado pintor
não sabe que um céu de amor
Não se borra assim de cinza.


Dreaming my dreams


[A menina sentada num banco da recepção do Instituto descansava os pensamentos e suas sintaxes desorganizadas pelo rigor diário de alguma razão subjetiva. Era um sono barulhento. Um pouco do imediatismo das despertas vozes no salão e outro tanto de uma imagem pseudo inconsciente, assombrada pela solidão, toda e nenhuma. No inteiro era isso: Um salão cheio de discursos inaudíveis, comemorando as belas letras. Tudo muito organizado no calor de uma manhã de sábado. O brinde, uma camiseta literatura vanguardista para profissionais, veteranos e calouros e há quem seja acidente também. A fila é grande. De onde viriam tantos anônimos nesses tempos de tamanho ostracismo e pouca ou nenhuma exceção? A menina duvida do seu lugar no salão e espreita os diálogos entusiasmados de olhos fechados, quase que selados pela exaustão da efusão. Dentre os transeuntes, a voz de uma mulher se destacava na multidão. Era cortante o seu timbre. Assassinava  um a um os ruídos, dos quais a memória rejeita guardar. Um genocídio polifônico! A menina teve medo de despertar a sua própria voz. A menina teve medo de ouvir com os olhos a singular voz. Afagava o calafrio em seu corpo com algum tipo de pensamento. Aprendera a tentar se bastar em momentos de torpor. A mulher se aproximou da menina. Debochava do silêncio da menina. Debochava do que nela era mais menina do que deveria ser. Não conseguia juntar na psique as debochadas sílabas com harmonia. As palavras se misturavam. A menina não entendera o discurso esdrúxulo. Imaginou o rosto dessa mulher que não conhecia. O que a fazia tão cruelmente superior? Sua grande técnica em desviar de emoções simplórias e subjugá-las a sua visão de mundo, suspeitou. Condenou-se a pensar que...]




Despertei desta metaficção com o gosto da bile na boca. Fora tudo um pesadelo, como todas as dores ilusórias que tomam de assalto aquela esperança que se tem ao amanhecer. Qual era a dimensão de mim que embarcou naquele devaneio? Era o subconsciente. Digo, o consciente. Ou ainda melhor, a realidade do mundo me pregando peças.

Monique Neiva

terça-feira, 11 de agosto de 2015

Captura


Ocupada com deveres domésticos, arrumava minha cabeceira cômoda no quarto. Abrindo uma das gavetas da mobília, um álbum prendeu-me a atenção. Dei a rememora aquelas imagens, quando estarreci, ao achá-lo em meio aquele emaranhado de recordações. Cavou-se um buraco no fundo da alma, revolvendo tudo que achava inerte. Na fotografia, nós regozijávamos. Os seus olhos pareciam falar de coisas, que acredito, belas de serem ouvidas. A lembrança veio tão clara que já nem sei se ejetei esse sentimento bonito que que nossos bem dispostos rostos imprimem. Também duvido se ainda te amo. Estou confusa com tal revelação. Então escuto a voz do narrador dizer-me, cortando o vasto silêncio:
- Maria, você foi muito amada!


Monique Neiva

Com vírgulas

Para A.

Há tempestades violentas sobre o mar revolto, podendo os ventos profaná-lo em brisa leve, mas já não podem a calmaria das ondas solitárias, buscando de dentro, na profundeza da maré, seu gemido mais sincero, seu Getsêmani mais cálido, que bordam torrentes de mistério e singela mudez e morangos mofados d'água e sólidos versos líquidos e gigantescos mesmos abismos, que se ampliam quando aves mergulham em afetos rasos, rasgando o tecido que vai de encontro ao espelho de céu, ancorando o desterro do revoltoso, circulando a trajetória em contínua errância maritimada, com o par de peixes em brasa de excessos de ciúmes de desejos de dúvidas desconfiançadas, ao perceber que mais um mar é demais pra amar, sem pontos

Monique Neiva

sexta-feira, 7 de agosto de 2015

Não esquece que é pra pôr o nome, criador.

Escapulo das mãos do criador:
Densa força impalpável!

Sou matéria, carne
E opostos não se fazem.

No sopro existencial, eu sou o mundo
Cheio até a boca de consciência

Alinhavado sem um tom de céu
Torto vaso de barro vestido de versos

À seta da tradição não me rendo
Minha ponte tem a solidão de firmamento.


Monique Neiva

Ah, Clarice... Como não lhe publicar?


terça-feira, 4 de agosto de 2015

Fluxo: Não tem novinha no grau






Ruas enfileiradas de carros, os motores ruindo a urbanização capitalista dos exageros. Todos jogam com o Sinal fechado um pouco de Viola. Instantes na caixa dos pensamentos em que talvez linhas pequenas  não saibam dizer: Procura-se instrumentos, tocando palavras que se escrevam menos engarrafadas.

Entre quatro paredes da casa da infância

Nos cantos da sala, lágrimas molham o batente.
Sob a cama, sonhos cobertos de realidade.
Nos armários, corações batendo empoeirados.
No porta-retratos, a moldura dos instantes.
Atrás da cortina, os raios de sol batendo na janela.
Nas gavetas, meias palavras bordadas.
No espelho, o prolongamento de meu corpo.
Nas paredes cruas, o temperado segredo de nossas tintas.
Em mim, cartas para quem?

Monique Neiva

Nota: Esse texto foi atividade de uma disciplina de criação em que tive como docente a Cássia Lopes, estimada professora. Um dos poucos que alterei quase nada.

domingo, 2 de agosto de 2015

Pés Alados



Acordei pensando nas minhas avós. Todas as duas tinham um hábito em comum (deve ser coisa de vó), o de calçar minhas percatas:
- Amarela ou Monica - Apelidos de infância que ainda são usados - vem aqui que Gracinha (mainha) chegou pra sair com você. Vovó vai calçar as percatas, caminha!
E era assim, com amor e paciência que limpavam meus pés para pô-los nelas. Foi a primeira vez que aprendi o benefício de caminhar com os pés no chão; sabia que depois alguém os calçaria de ternura. Os pés tinham asas com esses gestos! Meu irmão nunca gostou  de andar descalço, nunca precisou desse carinho de vó. Não sabia o que era ser colocado para voar.
Sinto que hoje é bem difícil permanecer de pés no chão, mesmo não tendo ninguém que os calce. Calcei as percatas da esperança.

Monique Neiva

Ps:. Esse texto e outro já tinham sido publicados no Facebook, mas resolvi resgatá-los para este cantinho. Me perdoe se nesse momento deixo de ser inédita! Rs

Por entre ruídos

Habituei-me a sentir os pequenos detalhes de coisas grandes
E temo pelas batidas em seu teto de vidro.

Monique Neiva