Esta publicação é a revelação de algo que nem eu mesma sabia. É um segredo que deixa de sê-lo agora. Irão entender-me. Não gosto de me desenhar. São inúmeros os motivos, mas citarei um que elegi como sendo o principal: o perigo iminente da intimidade.
O desenhista visita a vida alheia toda, desde a simples aparência dos traços físicos até uma profunda embriaguez subjetiva. Os olhos dele vão além do lápis, face e papel. São alguns minutos de extrema submersão no mundo que provavelmente desvenda. Os outros, ao deixar-se desenhar, entregam muito mais do que pensam. Não sondam nem se quer por um momento esta intimidade velada. Não podem imaginar o que descobri de cada um que já transformou-se em minhas linhas. Eu acho que não é justo ter acesso a tudo isso. Parece a violação de um direito básico, o de ter seu próprio espaço.
Quando me ponho na posição de desenhado, deixo-me revelar. Vamos concordar e descordar em algum ponto, tudo bem. Porém neste faço questão que concordem: É muito difícil ser visto de perto por outra pessoa, se desnudar e escancarar tudo.
No ato de desenhar e também de ter esse acesso incondicional, automaticamente firma-se um elo entre criador e inspiração.
Ao assumir o papel de observador e observado, sinto um duplo desconforto. Sou violadora e violada ao mesmo tempo. Se ver é sempre pesado, mesmo para alguém que ame demais ser quem é. Mesmo para uma leonina. Narciso está por fora disto, certamente. Para quem se desenha, as coisas podem ser muito mais caricatas do que o normal. Eis aí como me vejo: Uma mulher de 50 a 60 anos com algumas olheiras e pouca ou nenhuma vaidade.




